“Escrever é fácil.
Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto
final. No meio você coloca ideias”. Pablo Neruda
Não são todas as pessoas que
consideram escrever uma tarefa fácil. Pablo Neruda, renomado poeta chileno,
define de maneira simples o que para muitos é um processo complicado e muitas
vezes árduo. Eu demorei a começar a escrever. Digo, escrever de verdade. Fui
alfabetizada pela cartilha Sodré, juntando o “b” mais o “a” para formar o “ba”.
Quando cheguei no Ensino Fundamental e Médio não conseguia ligar uma frase a
outra. Foi uma fase difícil, a qual não me permitia se quer, entender o porquê
de não tirar boas notas nas aulas de produção textual.
Quando concluí o Ensino
Médio foi necessário escolher um curso de graduação. Não tive dúvidas. Optei por
Letras. Quem sabe, na faculdade, pudesse compreender o mistério da produção
escrita, da união conexa de uma frase e outra, da produção de um texto coerente
e que fizesse sentido para mim e para meus leitores.
Entre uma disciplina e outra
mais longe eu ficava dos meus textos. Cultura Brasileira, Teoria Literária,
Literaturas, inquestionavelmente, eu via muito texto, muito mesmo. Perfeitos,
significativos, conexos. Desde Alfredo Bosi até Drummond e Vinícius.
Tive que produzir muito
também. Sofri. Perdi horas e horas e me sentia insatisfeita com os resultados.
Obviamente que meus professores, também. Engana-se quem pensa que na faculdade
de Letras se aprende, principalmente, a escrever. Pressupõe que aquele que
passou por um vestibular onde há, inclusive, uma prova de redação, saiba produzir
um texto coeso e coerente.
Foi justamente nessa época,
ou seja, no início da faculdade que comecei a ter acesso ao computador. Bendita
hora que o acesso passou a ser facilitado. Aquela geringonça, grande e
desajeitada passou a fazer parte da mobília do meu quarto. Ela e a suave digo,
irritante música que eu ouvia após a meia-noite para tentar conectar a
internet. Internet? Sim, só discada e para aqueles que tivessem paciência.
Justo eu que era acostumada a dormir cedo precisava aguardar até meia-noite para
conseguir uma conexão com a rede, pois em outros horários era muito caro. Fui
forte, determinada e comecei a brincar de aprender a navegar naquele mundo
desconhecido. Por onde comecei? Por onde eu tinha a possibilidade de conhecer
pessoas: salas de bate-papo. Escolhia um nickname
e fazia uso da escrita para me comunicar com meus amigos virtuais, ou
melhor, tentar. No começo não era fácil. Eu, naturalmente, tinha dificuldades
para produzir textos. Agora, pensar rápido, escrever rápido, formando frases
imediatas fez com que no início eu perdesse muitos contatos. Muitos não tinham
a paciência de esperar meu raciocínio. Entre um passeio e outro pelas salas
virtuais fiz muitos amigos. Troquei muitas mensagens por correio eletrônico,
produzi muitos textos, porque dependia deles para estabelecer meus vínculos, minhas
amizades, no mundo novo do qual eu passava a fazer parte e me tornar habitante.
Desta forma, a escrita
passou a fazer sentido, ou seja, a ter signicado. Com o interesse pela escrita
surgiu, também, a vontade de saber mais sobre as tecnologias e investigar de
que maneira elas poderiam contribuir com o desenvolvimento de práticas
significativas de escrita. Até que, de sala de bate papo, em 2005, já formada e
atuando conheci os blogs e passei a
escrever a respeito das minhas experiências com as tecnologias e a educação.
Foi a descoberta de um novo mundo, pois eu escrevia e conseguia perceber que
aqueles que também se interessavam pelo assunto me acompanhavam e interagiam
comigo. Tive várias surpresas até perceber, de fato, o contrário do que
imaginava: eu não escrevia para mim. Eu escrevia para aqueles que quisessem
ler, viver junto comigo minhas descobertas, minhas percepções.
Justamente aqui está minha preocupação enquanto educadora,
a necessidade de escrever mais e, mais do que isso, disseminar essa
possibilidade de se mostrar ao mundo pelo que se é, vive, aprende, descobre. E
por que não usufruir das inúmeras possibilidades que temos para expor um pouco
de nós deixando registros e permitindo a interação para além daquilo que
estamos habituados?
É preciso buscar novas possibilidades, novos mares. A
respeito dos desafios, o poeta português, Fernando Pessoa, afirma que “os
barcos estão seguros se permanecem no porto, mas não foram feitos para isso.”